Quando o laudo termina, a responsabilidade começa a aparecer no rodapé

Quem já escreveu (ou revisou) um laudo técnico sabe: chega um momento em que o texto “fecha”. Diagnóstico provável, hipótese descartada, conduta sugerida, orientações para retorno, sinais de alarme. Na telesaúde, esse fechamento tem um tempero extra: o laudo não é só um documento clínico. Ele também vira registro digital, pode ser auditado, circula em plataformas, entra no prontuário eletrônico e, dependendo do caso, vai parar em um processo administrativo, judicial ou numa perícia.

É aí que muita gente percebe um detalhe que, no dia a dia corrido, fica escondido: como eu mostro, com clareza e rastreabilidade, de onde tirei o que afirmei? E não só “porque eu sei”, mas porque eu li, porque há diretriz, porque há evidência recente, porque existe um protocolo institucional, porque a legislação exige um jeito específico de registrar e assinar.

A metodologia de citação de referências depois do laudo técnico não é enfeite acadêmico. Ela funciona como um fio de segurança. Segura o médico, segura o paciente e ajuda a equipe inteira a trabalhar com o mesmo mapa.

No Brasil, esse cenário conversa diretamente com a Lei 14.510/2022 (telessaúde) e com a Resolução CFM nº 2.314/2022, que trata da telemedicina e menciona requisitos como assinatura digital qualificada padrão ICP-Brasil . Some a isso o fato de que dados de saúde são dados pessoais sensíveis na LGPD (Lei 13.709/2018) . O laudo é, ao mesmo tempo, cuidado e prova.

Vamos colocar ordem nessa casa, do jeito mais prático possível, sem virar um manual engessado.


Primeiro, o que a gente está chamando de “referência” num laudo de telesaúde

Quando se fala em referência, muita gente imagina apenas artigo científico. Só que, no contexto de laudo médico (especialmente em tele), “referência” vira um guarda-chuva com várias costuras:

  1. Evidência científica
    Artigos, revisões sistemáticas, metanálises, ensaios clínicos, guidelines de sociedades médicas, recomendações ICMJE, etc.

  2. Normas e legislação
    Leis, resoluções (CFM, CRM), portarias, notas técnicas, políticas institucionais. Exemplo: Lei 14.510/2022 e Resolução CFM 2.314/2022 .

  3. Protocolos e documentos internos
    Protocolos da instituição, linhas de cuidado, fluxos da teletriagem, critérios de encaminhamento. Aqui mora um perigo: se você cita um protocolo interno, precisa cuidar muito bem de versão, data e acesso, senão a referência vira areia movediça.

  4. Fontes técnicas de plataforma e segurança
    Quando o laudo depende de alguma garantia técnica (assinatura, registro, trilha de auditoria), pode ser útil referenciar documentos que sustentem a validade do processo. A exigência de assinatura digital qualificada no contexto da telemedicina aparece na Resolução CFM 2.314/2022 .

Percebe como, de repente, citar não é só “colocar um link”? É montar um pequeno mapa de rastreabilidade.


O erro mais comum é tentar “colar” um modelo acadêmico no laudo clínico

Se você tentar escrever o laudo como se fosse um artigo científico, a leitura vira pedra. Laudo bom é direto, clínico, orientado ao paciente e à continuidade do cuidado.

A sacada é simples: o corpo do laudo continua clínico, e as referências entram como suporte, em camadas. Pense como quem organiza uma casa: você não põe a caixa de ferramentas em cima da mesa do jantar, mas também não joga fora. Você deixa num lugar onde consegue achar rápido quando precisa.

Essas camadas normalmente ficam assim:

  • No texto, pequenas marcações discretas (número, autor-data, nota curta).

  • No final, uma seção “Referências” enxuta, só com o que realmente sustenta decisões importantes.

  • Quando necessário, um anexo técnico com detalhes (versões de protocolos, instrumentos, escalas, critérios, links permanentes, DOI).

Se o laudo for lido por um paciente, ele não se sente esmagado. Se for lido por uma auditoria, o caminho está ali.


Escolhendo um estilo de citação que não atrapalhe a vida

Aqui entram dois mundos que convivem bem:

Estilo ABNT (muito usado em ambientes acadêmicos e institucionais no Brasil)

A ABNT NBR 6023 orienta a elaboração de referências e a ABNT NBR 10520 trata de citações no texto .
Ela é ótima quando a instituição já usa ABNT em relatórios e políticas.

Estilo Vancouver/ICMJE (muito usado em saúde)

O estilo Vancouver é bem comum nas ciências biomédicas e funciona com numeração no texto, listando as referências por ordem de aparecimento .
Em laudo clínico, ele costuma ser mais “leve” visualmente, porque vira só um número.

Minha recomendação prática para laudos em telesaúde: se você tem liberdade, use Vancouver no corpo do texto (por ser limpo) e, na lista final, mantenha uma apresentação consistente (Vancouver mesmo, ou ABNT se a instituição exigir). Se você está em serviço que já tem padrão institucional, siga o padrão e adapte a metodologia ao fluxo.

O ponto não é “qual é o mais bonito”. O ponto é consistência. Nada pior do que um laudo com metade das referências em um formato e metade em outro, parecendo que cada trecho foi escrito num dia de humor diferente.


A metodologia em si, passo a passo, sem teatro

1) Defina o que, no laudo, precisa ser sustentado por referência

Nem tudo merece referência. Se você referenciar cada frase, o documento fica ansioso.

Referências normalmente entram quando o laudo faz uma destas coisas:

  • afirma conduta baseada em diretriz (ex.: antibioticoterapia em condição X, profilaxia, anticoagulação, etc.)

  • usa critério diagnóstico formal (escalas, scores, definições de guideline)

  • orienta limiar de encaminhamento (quando ir ao pronto-socorro, quando pedir exame, quando retornar)

  • faz restrição ou ressalva importante (teleconsulta não substitui exame físico em determinadas situações, necessidade de avaliação presencial)

  • depende de norma/regra (assinatura, registro, consentimento, guarda do prontuário)

Esses são os pontos onde um número de referência, uma nota curta ou um anexo técnico mudam o jogo.

2) Escolha fontes que sobrevivam ao tempo

Na telemedicina, link quebrado é um desastre silencioso. O laudo pode precisar ser lido anos depois.

Dê preferência a:

  • diretrizes oficiais de sociedades médicas, órgãos públicos, documentos em PDF com versão

  • artigos com DOI

  • páginas institucionais estáveis (ex.: Planalto para leis )

  • documentos normativos do CFM/CRM em repositórios oficiais

Quando a referência for uma página web “com cara de blog”, use só se for realmente necessário e, mesmo assim, registre data de acesso e, se possível, salve uma cópia institucional (ou cite o documento original que o blog está comentando).

3) Trate versão e data como parte do conteúdo, não como rodapé

Isso vale principalmente para protocolos internos e diretrizes atualizáveis.

Uma referência boa, nesse contexto, costuma carregar:

  • título do documento

  • instituição/autoria

  • versão

  • data de publicação ou revisão

  • URL/DOI (se houver)

  • data de acesso (especialmente para conteúdo online)

A ABNT NBR 6023 existe exatamente para organizar esses elementos .

4) Amarre referência e texto do laudo com uma frase humana

Aqui entra um detalhe que muda a leitura.

Em vez de jogar um número perdido, você pode fazer algo assim:

“Considerando sinais de alarme e limitação de avaliação física à distância, oriento avaliação presencial se houver piora respiratória ou febre persistente.” (ref. 2)

Percebe que a referência está lá, mas o texto continua com cara de conversa clínica, não de artigo.

5) Registre o “como” quando o laudo depende do meio digital

Esse é um ponto que muita gente esquece: laudo em telesaúde não vive só de conteúdo clínico. Ele vive de integridade do documento.

A Resolução CFM nº 2.314/2022 menciona que, para atuar por telemedicina, o médico deve possuir assinatura digital qualificada, padrão ICP-Brasil . Isso impacta a forma como você “fecha” o laudo.

Em termos práticos, uma metodologia robusta inclui:

  • indicação de que o documento foi assinado digitalmente (quando aplicável)

  • identificação do profissional (CRM/UF, RQE se relevante)

  • data e hora (com fuso, se a plataforma atende múltiplas regiões)

  • referência ao registro em prontuário eletrônico e preservação do histórico (quando o sistema faz isso)

Não é para escrever um tratado técnico no final do laudo. Às vezes, uma linha padrão do serviço resolve.

6) Proteja o paciente também nas referências

Parece estranho, mas acontece: a pessoa coloca, na referência, um link que expõe dados do paciente (por exemplo, um endereço de arquivo interno com identificador).

Como a LGPD define dados de saúde como sensíveis , a metodologia precisa ser cuidadosa:

  • referência nunca deve conter identificador de paciente

  • links internos devem apontar para documentos gerais, não para registros individualizados

  • se houver anexos (imagens, resultados), eles devem ficar no prontuário com controle de acesso, não como “link público”


Um modelo de organização que funciona bem (e não fica feio)

Abaixo, um exemplo de como estruturar a seção final. Não é regra, é um esqueleto que costuma deixar o documento elegante.

Mini-tabela de rastreabilidade das fontes

Tipo de fonte Quando usar O que registrar Exemplo de detalhe que salva o futuro
Diretriz clínica condutas, critérios, triagem título, sociedade, ano, versão versão da diretriz e data
Artigo científico afirmações específicas de evidência autores, periódico, ano, DOI DOI + acesso via base confiável
Norma/lei requisitos de telemedicina, registro, assinatura órgão, número, data, link oficial link do Planalto/CFM
Protocolo interno fluxos da instituição nome, versão, data, setor responsável versão e “válido a partir de…”
Documento técnico de segurança assinatura, integridade norma/ato, versão, responsável referência explícita ao padrão exigido

Exemplos de referências, do jeito que você realmente usaria

Exemplo 1 citando norma/lei (ABNT, ideia geral)

  • BRASIL. Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022. Autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional. Disponível em: (fonte oficial). Acesso em: (data).

  • CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.314, de 20 de abril de 2022. Define e regulamenta a telemedicina. Disponível em: (repositório oficial). Acesso em: (data).

Exemplo 2 citando norma de referência/citação (quando o laudo vira documento institucional)

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023: Informação e documentação — Referências — Elaboração. 2018.

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520: Informação e documentação — Citações em documentos — Apresentação. 2023.

Exemplo 3 Vancouver/ICMJE (bom para evidência biomédica)

No Vancouver, o texto costuma receber um número, e a lista final segue a ordem de aparecimento. O princípio de “numerar e listar na mesma ordem” é típico desse estilo .

No método de citação acadêmica numérica, é possível aplicar tanto o exemplo 2 como o 3.


Um detalhe pouco óbvio que diferencia um laudo “ok” de um laudo excelente

Laudos excelentes têm uma espécie de “segunda leitura” embutida.
Na primeira leitura, o paciente entende o essencial.
Na segunda leitura, um profissional (ou auditor) percebe que aquilo foi escrito com método.

Isso aparece em pequenas coisas:

  • você não fala “segundo estudos”, você aponta qual (ou ao menos qual guideline)

  • você não diz “orientado retorno se piorar”, você descreve o que é piorar, e se isso está apoiado em critério, você referencia

  • você não trata teleconsulta como um “atalho”, você reconhece limites e registra isso, porque telemedicina tem regramento e ética próprios

E tem uma beleza discreta nisso: o documento passa a ser mais justo com o paciente, porque ele não fica refém da interpretação do dia.


Como implementar isso no fluxo real, sem aumentar o tempo de atendimento

Aqui vai a parte que mais interessa na prática: ninguém quer um processo que dobre o tempo de escrita.

Um caminho simples:

  1. Crie uma “biblioteca curta” do serviço
    Um arquivo com 15–30 referências-chave (guidelines mais usados, leis e resoluções, protocolos internos principais).
    Cada referência já padronizada no estilo escolhido.

  2. Use “blocos” ou snippets de referência
    A cada tema recorrente (asma, hipertensão, ITU, dor torácica, cefaleia), deixe pronto um bloco de referência com 2–4 itens bons, atualizados.

  3. Regra de ouro para atualização
    Se a diretriz muda, você atualiza o bloco. O laudo continua rápido, mas não fica velho.

  4. Data de acesso automática, quando for web
    Em fontes online, registre data de acesso (ABNT gosta disso, e no mundo real faz sentido) .


Checklist final, do tipo que você lê e pensa “ok, agora eu sei o que fazer”

Sem transformar sua vida num ritual:

  • O laudo tem pontos críticos apoiados por referência (conduta, critérios, limites da teleconsulta).

  • As referências escolhidas têm versão, data, DOI ou fonte oficial quando possível.

  • A lista final segue um padrão único (ABNT ou Vancouver).

  • Conteúdo online tem data de acesso.

  • Protocolo interno tem versão e vigência.

  • Nada nas referências expõe paciente (LGPD no radar) .

  • Quando aplicável, o fechamento do laudo respeita requisitos de telemedicina e assinatura digital (contexto CFM) .

Startups de telemedicina no Brasil: o que fazem, como crescem e para onde vão

telemedicina - médico atendendo

A telemedicina deixou de ser um experimento apressado da pandemia e virou infraestrutura. Hoje ela aparece desde a atenção primária até o diagnóstico por imagem, passando por saúde mental, monitoramento remoto e prescrição digital. No Brasil, o arcabouço regulatório amadureceu, o capital voltou a circular no setor e um punhado de empresas já opera em escala, combinando tecnologia com redes de profissionais de saúde e integrações com o sistema público e o mercado de planos.

Aqui no AB Startups Saúde, vamos destrinchar esse mundo para você.

O que é telemedicina na prática?

Vamos começar com definições básicas. Telemedicina é o exercício da medicina mediado por tecnologias digitais, em tempo real ou de forma assíncrona. A norma que organiza o tema é a Resolução CFM 2.314/2022, que descreve modalidades como teleconsulta, teleinterconsulta, telediagnóstico, telemonitoramento, teletriagem e teleconsultoria. O texto reforça que a consulta presencial segue como referência e que o médico tem autonomia para indicar o formato adequado, com registro no prontuário eletrônico e requisitos de segurança e interoperabilidade.

Há uma distinção útil. Telessaúde é o guarda-chuva que abrange todos os profissionais de saúde. Telemedicina é o recorte médico, com atos e responsabilidades específicos. Em 2022, essa abertura foi consolidada em lei federal, ao autorizar e disciplinar a telessaúde em todo o território nacional, alinhando o país ao que já vinha acontecendo no SUS e no setor privado.

Linha do tempo regulatória que destravou o mercado

Em março de 2020, o Ministério da Saúde publicou a Portaria 467 e, alguns dias depois, veio a Lei 13.989/2020, autorizando o uso da telemedicina de forma excepcional durante a crise de Covid-19. O passo seguinte foi a regulamentação definitiva do CFM em 2022 e, no mesmo ano, a Lei 14.510 inseriu a telessaúde na Lei Orgânica da Saúde, deixando de ser uma exceção para virar política de longo prazo. Na prática, isso deu previsibilidade a hospitais, operadoras e startups.

Do lado da proteção de dados, a LGPD classifica informações de saúde como sensíveis e exige bases legais específicas, consentimento claro quando aplicável e controles técnicos e organizacionais. A resolução do CFM também amarra a necessidade de prontuários eletrônicos com nível de garantia de segurança compatível e de assinatura digital qualificada no padrão ICP-Brasil para documentos médicos. Isso vale, por exemplo, para atestados e receitas digitais.

Como as startups operam

O ecossistema brasileiro costuma se organizar em alguns blocos.

  1. Plataformas que conectam pacientes a clínicos gerais e especialistas por vídeo, chat e telefone, muitas vezes com times de coordenação do cuidado, integração com exames e encaminhamento presencial quando necessário. É onde aparecem os modelos B2B2C com operadoras e RHs corporativos.
  2. A psicoterapia online virou uma categoria própria e, no Brasil, ganhou escala dentro de ecossistemas mais amplos de saúde digital. A fusão entre Conexa e Zenklub em 2023 é um caso emblemático.
  3. Empresas de telerradiologia e outros exames emitem laudos a distância para clínicas e hospitais, reduzindo tempo de espera e viabilizando cobertura fora dos grandes centros. É um mercado com players maduros, integrações com PACS e uso crescente de IA para triagem.
  4. Plataformas permitem ao médico emitir receitas com assinatura qualificada e, do lado do paciente, comprar o medicamento e agendar exames pela mesma interface, atendendo às regras de ICP-Brasil e às boas práticas do CFM.
  5. Biotechs brasileiras colocaram na rua equipamentos rápidos de análise e conectaram o resultado a plataformas em nuvem, aproximando diagnóstico e conduta clínica.

O tamanho da adoção

A pandemia funcionou como um empurrão. Entre 2020 e 2021, milhões de consultas por telemedicina foram realizadas no país por hospitais, operadoras e redes privadas. O pico de utilização deu lugar a uma estabilização em patamar superior ao pré-pandemia, com forte correlação entre volume e investimento. As operadoras chegaram a operar centenas de milhares de teleconsultas por mês no auge de 2020, com alto índice de resolução.

Do lado dos recursos financeiros, o mercado de healthtechs seguiu ativo, ainda que mais seletivo. O tíquete médio diminuiu e o número de negócios aumentou, com telemedicina entre as tecnologias mais adotadas. É um retrato de capital mais criterioso e maior foco em eficiência e desfechos clínicos.

Quem são os principais players e o que eles fazem

Conexa Saúde é um dos maiores ecossistemas de saúde digital do país. Em 2023, anunciou a fusão com a Zenklub, unindo cuidado físico e emocional. Em 2024, já no breakeven segundo a imprensa especializada, adquiriu a Lina, de inteligência de dados para gestão do cuidado. A companhia captou recursos relevantes em 2022 e projeta receitas significativas.

Docway e Docpass são pioneiras em levar telemedicina para grandes carteiras de operadoras e empresas. Em 2021, anunciou app de triagem com IA para agilizar teleconsultas e concentrar histórico do paciente.

ViBe Saúde é uma plataforma nascida no B2C que captou rodada Série A em 2021 e vem posicionando um ecossistema digital com teleconsultas, entrega de medicamentos e rede de parceiros presenciais.

dr.consulta Online é uma rede de clínicas populares quye integrou telemedicina à sua oferta, com agendamento digital e uma malha física que facilita o híbrido quando há necessidade de exame físico.

Portal Telemedicina e Telelaudo: No telediagnóstico, a Telelaudo se apresenta como líder com acreditação específica do Colégio Brasileiro de Radiologia, enquanto a Portal conecta equipamentos médicos e radiologistas, usando IA para triagem e laudos mais rápidos.

Memed: A jornada de e-prescription ganhou tração com plataformas que permitem ao médico assinar digitalmente e ao paciente seguir o cuidado sem fricção, inclusive com compra do medicamento. O CFM mantém um portal oficial de receitas digitais que exige certificado ICP-Brasil, e o ecossistema privado complementa a experiência.

Hilab: Biotech curitibana que desenvolveu dispositivos rápidos de biologia molecular e integra resultados à nuvem, encurtando o ciclo diagnóstico no ponto de cuidado.

Telemedicina no SUS

O SUS foi pioneiro em telessaúde com o programa Telessaúde Brasil Redes, criado em 2006 e institucionalizado em 2007. Hoje o tema é uma das frentes do SUS Digital, com foco em ampliar o acesso a especialistas, reduzir filas e integrar o cuidado entre níveis de atenção. Para startups, esse histórico importa porque cria demanda, padrões e oportunidades de integração com a atenção básica municipal e estadual.

O que está funcionando e os pontos de atrito

A combinação de Resolução CFM 2.314/2022, Lei 14.510/2022 e LGPD deu base clara para operar. A norma do CFM determina prontuário eletrônico com nível de garantia NGS2, registro adequado de cada atendimento e consentimento livre e esclarecido para o uso de telemedicina. Documentos devem ser assinados com certificado ICP-Brasil. Quem não cumpre esses requisitos perde elegibilidade para contratos e sofre resistência de conselhos e operadoras.

Depois do salto de 2020 e 2021, o volume de teleconsultas estabilizou em patamar elevado, mas com concentração no Sudeste. Isso reforça o papel de telediagnóstico e telessaúde como mecanismos de mitigação dos desertos médicos, desde que haja conectividade e organização da rede local.

A dor não está só na consulta. Sem integração com laboratórios, farmácias, autorização de guia e faturamento, a experiência degrada e o custo sobe. A exigência de SRES interoperável empurra o ecossistema para padrões mais sólidos, mas a implementação é gradual e desigual.

No privado, o desenho de pacotes e a medição de desfechos importam para evitar sobreuso e controlar sinistralidade. No corporativo, engajamento e retorno em saúde mental viraram métricas centrais. A consolidação de players, como no caso Conexa-Zenklub, nasceu desse encaixe entre jornada clínica e ROI percebido pelos pagadores.

Tendências que devem guiar os próximos anos

Tele é a porta de entrada, mas com base para transitar entre físico e digital. Redes próprias de clínicas, parcerias com laboratórios e logística de medicamentos consolidam o percurso do paciente.

Do verificador de sintomas ao priorizador de exames em radiologia, o uso de modelos para reduzir tempo de espera e aumentar acurácia tende a se tornar invisível para o paciente e indispensável para a operação.

O SUS Digital deve ampliar teleconsultas entre equipes da atenção básica e especialistas, algo que tem efeito direto na redução de filas e na capacidade de resolutividade dos municípios.

Os movimentos de fusão e aquisição mostram que escala e foco em linhas de cuidado contam. Startups que se posicionam em nichos de alto valor, integradas a operadoras e hospitais, tendem a sobreviver melhor aos ciclos de capital.

Exemplos de uso que ilustram o valor

Uma empresa com milhares de colaboradores contrata um pacote de saúde emocional e clínica. O funcionário agenda psicoterapia online e, se necessário, é encaminhado para psiquiatria e exames. Em paralelo, a plataforma coordena casos crônicos, com acompanhamento remoto e gatilhos para consultas presenciais. Esse encadeamento só funciona com prontuário unificado, prescrição digital e regras claras de consentimento e sigilo previstas em lei.

Uma rede municipal sem radiologistas em tempo integral envia exames de imagem para telerradiologia e recebe laudos no mesmo dia. Os casos urgentes são triados por IA e voltam antes, ajudando a ordenar o fluxo do pronto atendimento.

Para quem quer empreender ou contratar

Prontuário eletrônico compatível com NGS2, logs completos, termo de consentimento claro e assinatura digital qualificada para documentos médicos. Sem isso, o resto é maquiagem.

Operar no Brasil significa conversar com planos, TISS, PACS, farmácias, laboratórios e sistemas municipais. A diferença entre piloto e escala costuma estar nesses fios invisíveis.

Defina a linha de cuidado e os indicadores. Resolução clínica, tempo de espera, taxa de encaminhamento para presencial e adesão a tratamentos são métricas que contam muito mais do que número bruto de consultas.

Existem oportunidades nos dois mundos. Entender a jornada local e as prioridades dos pagadores evita ofertas genéricas.